Os naipes de Copas e a Força Inconsciente

Em um jogo de Tarot, nos deparamos com várias cartas de Copas, que são do elemento Água. Muitas pessoas me perguntam o que isso significa. Quero explicar a riqueza e a profundidade simbólica das Copas usando conceitos do grande teórico Carl Gustav Jung. Ele a definiu muito bem, chamando estes aspectos de Solutio.

Solutio é a melhor definição da raiz da alquimia. Comparando a alma com processos transformadores de forma, como na alquimia, não se deve realizar nenhuma operação útil enquanto não transformar tudo em água.A água pode ser comparada ao útero e a Solutio é um retorno para, desse modo, através da vivência emocional do conteúdo psíquico, produzir a renovação da psique.

Ou seja, é através da dissolução que a alma encontra novamente a força para seguir em frente.

Vamos aprender mais sobre esse aspecto complexo do nosso inconsciente?

O que é a Solutio?

“O berço baloiça por cima de um abismo e o senso comum diz-nos que a nossa vida mais não é do que uma brecha de luz entre duas eternidades de treva.” Vladimir Nabokov

Na alquimia, a prima matéria deve ser submetida a uma série de processos químicos a fim de transformá-la na Pedra Filosofal. Uma dessas operações alquímicas a qual a prima matéria pode ser submetida é a Solutio.

A Solutio está ligada ao elemento água e consiste em transformar um sólido em um líquido. O sólido então se dissolve, se desmancha no líquido, sendo por ele engolido.

A água era considerada como um útero, e a Solutio, em termos psicológicos, um retorno ao útero, configurando uma regressão da libido (antes investida no Ego) ao inconsciente, para fins de purificação e renascimento.

Psicologicamente, trata-se de um retorno a matriz, que simboliza o início e fim da vida, para que os aspectos “endurecidos” na nossa personalidade, que não aceitam mudanças, “desmanchem” e sejam assim transmutados.

É um estado pré-consciente, onde o Ego se encontra simbolicamente como um feto na barriga da mãe, por isso representa o renascimento. Essa experiência aparece nos textos alquímicos, narrada tanto de forma agradável como de forma desagradável.

O Ego imaturo acha essa sensação prazerosa e pode ficar preso, rendido, o que é perigoso e gera muita ansiedade. Simboliza um desejo inevitável de dissolução. O perigo é que a autonomia do Ego, conquistada a duras penas, fica dissolvida e presa nesse “útero”, numa falsa casca que lhe confere a ideia de proteção simbólica.

Isso pode se manifestar nos estados de nostalgia e saudades (como forma mais branda), a estagnação financeira, aos apego ao passado, o período menstrual, o desejo de união mística e até o desejo de inconsciência do estado alcoólico.

Um desejo de aniquilamento e de dissolução é comum a todos os seres humanos, mas quando se mantém por tempo demasiado acaba sendo destrutivo. No aspecto negativo pode levar a neurose e a psicose; ou até a morte. Porém, a favor do processo de individuação, é temporária e leva a renovação e ao renascimento psicológico.

A Solutio tem um duplo efeito: a dissolução de uma forma e o surgimento de uma outra regenerada. Por essa razão, o batismo é um símbolo da Solutio.

Do lado positivo e saudável, alguns aspectos nossos que não se encontram em consonância com o Self podem morrer e renascer de forma rejuvenescida na Solutio

As pessoas com falta de água, resistentes à Solutio são os donos da verdade, não se adaptam à outras idéias que não as suas, possuem perfil militar, são autoritárias, arrogantes, céticas, não tem compaixão e se defendem ardorosamente de idéias alheias.

O excesso de água, ou Solutio, faz com que se tornem matriarcais e protetoras em excesso, adoram absorver o problema alheio, querem sempre estar com pessoas e as trata como se fossem filhos, tem personalidade fraca e absorvem a personalidade dos outros “por osmose”, são dramáticos, carentes de afeto e chantagistas emocionais, não sabem o tempo de parar de ajudar os outros.

Palavra chave da Solutio: fluidez, adaptação.

A Solutio Coletiva

Podemos observar símbolos alquímicos nos contos de fadas. No conto “A Bela e a Fera”, a heroína convive com a Fera durante um tempo e começa a ter saudades da casa e, assim, pede ao amado para visitar o pai e as irmãs. Esse lar de origem e a saudade, representam a regressão da libido, que vai do Ego diferenciado ao inconsciente original.

O impulso de retorno à família, ao útero ou ao estado indiferenciado do ego, que a heroína empreende tem como objetivo um renascimento no confronto com aspectos sombrios que dificultam o processo de individuação e a relação Ego – Self. O Ego precisa passar por essa “limpeza” – da Solutio – de conteúdos que não servem mais para o desenvolvimento do indivíduo.

Essa função dá o valor as coisas e também o autovalor. É uma função de apreciação e que rege os relacionamentos, uma vez que ela mostra se gosto ou não de algo ou alguém e até onde posso ir sem que atinja a minha auto-estima.

Às vezes o agente de dissolução é o princípio de Eros (Vênus ou Afrodite). Na mitologia, Vênus tem importantes relações com a água, vez que a deusa nasceu do mar. Seus perigosos poderes de Solutio têm como representação sedutoras sereias ou ninfas aquáticas que atraem os homens, levando-os à morte por afogamento.

Por isso a Solutio se liga ao princípio de Eros, pois é ele quem promove a união e o significado que o sentimento traz quando apreciamos alguém.Vemos no mito “Eros e Psique” a heroína cai no sono da morte, na dissolução, no inconsciente, para que ocorra a redenção do amado. No amor existe o desejo de se dissolver e ser contido pelo ser amado.

O estar apaixonado leva a uma dissolução do ego nos sentimentos. Perdemos o limite do que é o sujeito e o objeto. Por essa razão vemos que os casais apaixonados passam a se comportar, inconscientemente, de forma semelhante. O sentimento é uma função de apreciação, por isso, o gostar, o apreciar alguém pode dissolver vários complexos. O gostar nos faz “dissolver” por alguém.

Portanto, nos contos de fadas e nos relacionamentos, vemos essa operação alquímica como criativa e transformadora. Existe perigo nessa jornada? Sim! O perigo de se perder no outro e o de não querer assumir responsabilidades e encarar a realidade da vida. Mas no aspecto positivo saímos renovados, transformados e rejuvenescidos.

A Solutio provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. Outras vezes a Solutio pode tornar-se Mortificatio. Isso é compreensível porque o que está sendo dissolvido experimentará a Solutio como uma aniquilação de si.

“Para as almas, é morte tornar-se água”. Heráclito

Nos mitos bíblicos, a ameaça de um dilúvio mundial era usada para encorajar a percepção de Deus. Da mesma forma, uma ameaça de inundação vinda do inconsciente pode ter um efeito salutar sobre um ego presunçoso e produzir a consciência da necessidade de relacionamento com o Transpessoal. Esse estado é expresso no Salmo 69:

” Salvai-me, ó Deus, pois a água tem entrado até a minha alma. Estou imerso num lodo profundo, onde não consigo firmar pé: entrei nas águas profundas, onde me submergem as ondas” (1, 2 – AV).

Os sonhos com inundações podem fazer menção da Solutio. Representam uma ativação do inconsciente que ameaça dissolver a estrutura estabelecida do ego e reduzi-lo à prima matéria.

A Solutio como Força Feminina

As grandes transições da vida costumam ser experiências de Solutio, por isso, a relação com a água e a vida uterina. A mulher poderá ter mais facilidade em compreender esses movimentos cícilicos emotivos e transitórios, porque ela passa mensalmente por eles, durante seu ciclo menstrual.

“Na época do período menstrual, a natureza feminina instintiva movimenta-se dentro dela e, como maré enchente, subjuga pelo menos parte de sua consciência. Isso não é necessariamente uma experiência negativa, mas pode ser também positiva, como o sono, que poder considerado como perda de tempo, quando na verdade é durante o sono que as faculdades físicas são restabelecidas. Tanto um como o outro são meios de entrar em contato com as camadas mais profundas da natureza, em geral perdidas na regiões inacessíveis do inconsciente.” Ester Harding

O que isso tudo tem a ver com nossa vida de hoje? Bom, hoje não damos bola para os períodos menstruais, não mais que o necessário, talvez ainda na tentativa da mulher igualar-se aos homens ou porque no fundo ou declaradamente concordamos com os primitivos de que a menstruação é uma doença, um aborrecimento, uma sujeira, algo inútil e que atrapalha a vida. De novo, será?

A palavra menstruação vem de mens, que significa lua; menstruação = mudança de lua, ciclo lunar.

Do ponto de vista biológico, é um momento riquíssimo, de reparações hormonais e das células ovarianas e uterinas, que garantem a perpetuação da vida.

Do ponto de vista mitológico, tabus e mitos representam realidades psíquicas, na maioria inconscientes. No caso, o tabu do isolamento talvez não represente apenas o medo masculino do sangue feminino mas também uma necessidade das próprias mulheres de recolhimento.

Assim, na mudança de lua, a mulher pode ser afetada com irritabilidade, algumas dores, inércia ou inquietação, permitir-se um tempo de introversão, afastamento, diminuição do ritmo e respeito ao ciclo natural talvez seja muito regenerativo não só para o corpo mas para a alma também, harmonizando a atitude consciente com a inconsciente.

As mulheres carregam, simbolicamente, o poder do renascimento e da morte.

Aprendemos com as ancestrais que temos nosso tempo de contemplação interior quando, como a Lua Nova ou Minguante, nos recolhemos em busca de sonhos e sentimentos mais profundos. As emoções, o corpo, a natureza são alterados conforme a Lua gira em torno da Terra.

Nas tradições antigas, o Tempo da Lua era o momento em que a mulher não estava apta a conceber, era um período de descanço, onde se recolhiam de seus afazeres cotidianos para poderem se renovar. “É o tempo sagrado da mulher”, o período menstrual, conforme nos conta Jamie Sams, “durante o qual ela é honrada como sendo a Mãe da Energia Criativa”.

O ciclo feminino é como a teia da vida e seu sangue está para seu corpo assim como a água está para a Terra. A mulher, através dos tempos, é o símbolo da abundância, fertilidade e nutrição. Ela é a sonhadora.

Nas tradições nativas norte-americanas há as “Tendas Negras”, ou “Tendas da Lua”, momento em que as mulheres da tribo recolhem-se em seu período menstrual. É o momento do recolhimento sagrado de contemplação onde honram os dons recebidos, compartem visões, sonhos, sentimentos, conectam-se com suas ancestrais e sábias da tribo. São elas que sonham por toda a tribo, devido ao poder visionário despertado nesse período. O negro é a cor relacionada à mulher na Roda da Cura. Também são recebidas nas tendas as meninas em seu primeiro ciclo menstrual para que conheçam o significado de ser mulher. Esse recolhimento não é observado somente entre as nativas norte-americanas, mas também entre várias outras culturas.

As meninas kanamari, do Amazonas, também ficam reclusas enquanto dura seu primeiro sangramento, sendo alimentadas somente pela mãe. Assim ocorrem com as menina da tribo tukúna, que habitam a região entre o Brasil e o Peru, nesse período de reclusão aprendem os afazeres e a essência do que é ser uma mulher adulta. Observa-se, em alguns casos, como parte do rito, cortar o cabelo e pintar o corpo de negro. São ritos de honra à mulher, e não o afastamento das mesmas pela impureza, como foi mal-interpretado por muitas outras culturas, principalmente a nossa ocidental extremamente influenciada pelos valores machistas e cristãos.

Segue um trecho sobre a Tenda da Lua, de Jamie Sams, falando-nos sobre a importância desse ciclo de ligação com a Terra e a Lua.

“O verdadeiro sentido dessa conexão ficou perdido em nosso mundo moderno. Na minha opinião, muitos dos problemas que as mulheres enfrentam, relacionados aos órgãos sexuais, poderiam ser aliviados se elas voltassem a respeitar a necessidade de retiro e de religação com a sua verdadeira Mãe e Avó, que vêm a ser respectivamente a Terra e a Lua. As mulheres honram o seu Caminho Sagrado quando se dão conta do conhecimento intuitivo inerente a sua natureza receptiva. Ao confiar nos ciclos dos seus corpos e permitir que as sensações venham à tona dentro deles, as mulheres vêm sendo videntes e oráculos de suas tribos há séculos. As mulheres precisam aprender a amar, compreender, e, desta forma, curar umas às outras. Cada uma delas pode penetrar no silêncio do próprio coração para que lhe seja revelada a beleza do recolhimento e da receptividade.”

Assim, as grandes transições da vida costumam serem experiências de Solutio. O fraco e imaturo pode ser destruído pela violência das águas, enquanto que o saudável será fertilizado e vivificado como a terra é pela água.

Conclusão

Os alquimistas diziam que para tal arte era necessário ter também muito Amor. A capacidade de derreter-se quando sofre um aquecimento é característica de uma pessoa forte que se permite atravessar-se pelas emoções sem, no entanto, se identificar com o seu poder, portanto, escapando da inflação ou deflação do ego. Livre para viver seus fluxos de vida.

O ego trabalha para se manter diferenciado enquanto se aproxima do arquétipo como forma de nutrição sensível (espiritual). Se ele se identificar com o poder do arquétipo de modo a tomar para si a magia inerente aos arquétipos, se dissolverá, mas provocará um congelamento de sua própria sensibilidade (espiritualidade).

O permanente processo vital requer que o ego coopere e experimente sua própria redução em direção ao self para, em seguida, se abastecer de sua energia criadora e produzir a ampliação da personalidade.

Esse é um grande segredo para o caminho do aprendizado.

E você, sabe como se encontra a sua relação com a Solutio? Para saber mais sobre os aspectos profundos do seu inconsciente, agende uma sessão de Tarot pelo contato (48) 98826-4115.