O Inconsciente e a Deusa Hécate

“… No início de tudo, Hécate fala:

Quando o Universo atravessou os umbrais da existência
Em um fogo cósmico brilhante como um raio
Eu, Hécate, testemunhei o primeiro nascimento
Eu, Hécate, observava de soslaio
Enquanto a escuridão se tornava firmamento
Enquanto “O Nada” paria “O Tudo”, que ainda haveria de ser
Eu existi entre os dois, caótica, poderosa, potente
Sol e Lua, Terra e Céus, Hades e o Olimpo ainda a nascer
Existo no entremundos, no crepúsculo, e no Sol poente
Sou o sopro que deixa seus pulmões vazios
Sou o grito desesperado do recém-nascido
Moro nas juras de amor sussurradas ao ouvido
E nas lágrimas da verdade, ricas em sal
Pois sou a zona cinzenta entre o bem e o mal
Ah… mas o que se criou há de se destruir
Tudo é cinza, e reino absoluta. Não há mal ou bem
Meu é o reino que não tem Rainha ou Rei
Meu é tudo o que não pertence a ninguém
Como portadora da chave, eu permaneci e permanecerei
E quando o Universo deixar de existir, aqui estarei”

Siegel

Os arquétipos são manifestações de camadas mais profundas do inconsciente e podem ser encontrados nos mitos através dos símbolos. Os símbolos possibilitam uma comunicação metafórica com as imagens do inconsciente e possuem complexos pessoais e arquétipos fundamentais para a compreensão da dinâmica do ser humano.

O inconsciente como uma fonte iluminadora e criativa, em seus inúmeros aspectos que influenciam a consciência, formam os símbolos, de maneira que a linguagem serve de intermeio, e se apresenta por meio de sonhos, imagens e palavras.

O acesso aos aspectos inconscientes é uma opção rica para a maturidade emocional e psicológica. Esse confronto permite a abertura para o desenvolvimento e a ampliação da consciência.

Algumas pessoas passam a vida ignorando acontecimentos significativos de sua história, até que um novo acontecimento desencadeia uma série de sentimentos que as fazem retomar a situação já vivida.

A história de cada pessoa fala sobre quem ela é, o que ela passou é parte importante do que a constitui. Chamamos de complexo um grupo de imagens/ideias psíquicas formados a partir da história pessoal que possuem afeto e autonomia.

Os complexos formam o inconsciente pessoal, e atuam como partes da personalidade que se constelam a partir de processos associativos, cada um deles pode se manifestar de várias formas. Eles aparecem quando há uma falha do ego, uma distração, a qual faz com que os fenômenos sejam sentidos, observados de um outro modo.

Um complexo é negativo quando se manifesta de uma maneira prejudicial ou que traz sofrimento à vida da pessoa, ele é sempre atravessado por um arquétipo, que são imagens iniciais ou modelos universais que se tem sobre alguma coisa, os quais compõe o inconsciente coletivo.

Hécate na psicoterapia

Muitas pessoas procuram terapia em momentos marcantes da vida, às vezes, sentem que o mundo desabou em suas costas, se percebem em um emaranhado de sofrimento e encontram na psicoterapia um caminho nessa encruzilhada. É exatamente nesse ponto que a Deusa Hécate pode exercer poderosa influência, de maneira simbólica, no inconsciente.

Na mitologia, a Deusa Hécate está ligada à magia e aos encantamentos. Associada ao mundo dos mortos, ela se apresenta sob a forma de animais ou com tochas nas mãos. Nas encruzilhadas, colocavam sua estátua sob a forma de uma mulher com três corpos ou três cabeças e depositavam oferendas para atraírem o seu favor. Considerada Deusa das Encruzilhadas, Hécate é a condutora das almas nas passagens entre mundos, na jornada da vida, no destino.

Ela simboliza a capacidade de encarar o sofrimento e caminhar com uma tocha em direção a escuridão inconsciente, a força para o mergulho no escuro de forma reveladora. Ela encarna os medos, deixa morrer o velho para o novo nascer. Amorosamente, coloca um fim ao que não é necessário.

“As encruzilhadas representam aqueles lugares nos quais a consciência cruza com o inconsciente; em outras palavras, o ponto em que você deve abdicar da vontade do Eu em nome de uma vontade maior.” (WOODMAN, 1993/2003, p.137)

Hécate é considerada uma Deusa Tríplice, por conter a Virgem, a Mãe e a Anciã. Essa última é aquela que atravessou muitas encruzilhadas, se rendeu aos caminhos do inconsciente, abdicando das exigências do Eu (ou Ego). Ela reconhece os medos e as limitações, o que fez seguir o caminho da dor e, com essa postura, pode usufruir da situação, redescobrir-se e transformar-se. Quando Hécate está presente, há um potencial de transformação.

Na psicoterapia, o consulente deve se envolver com seu movimento interno em busca de uma ampliação da consciência, muitas angústias podem ser compreendidas revisitando aspectos da história pessoal, alguns desses aspectos se encontram guardados nas camadas mais profundas do inconsciente.

Ao olhar para a trajetória da própria vida, uma janela se abre e o terapeuta pode auxiliar o consulente a reconhecer o que ele viveu até aqui, o que é parte importante de sua história e as suas marcas. Embora escondidos, alguns complexos e conteúdos arquetípicos, continuam a atuar e, muitas vezes, aparecem de forma destrutiva, auto-sabotadoras, desenrolando sensações de insegurança, medo, ansiedade e até bloqueios.

Mesmo que por um caminho doloroso, reviver e encarar a própria história torna-se essencial para que se possa seguir em frente. A compaixão consigo mesmo deve surgir primeiro e a partir daí com o outro. Nesse sentido, viver a vida em sua plenitude, com seus aspectos bons e ruins, é um ato de coragem, de amor.

O termo amor, em nossa cultura, é jogado para todo lado. A mudança do poder para o amor, envolve um imenso sofrimento. Todo trabalho criativo procede desse nível, no qual partilhamos nosso sofrimento, simplesmente o puro sofrimento de sermos humanos. E é aí que está o verdadeiro amor. E nada melhor do que desenvolver o amor por si mesmo.

O processo de psicoterapia no tarot e na astrologia envolve reconhecer a força nas feridas, uma forma amorosa de resignificar a vida, um olhar transformador com nós e com o outro, assim se faz alma.

Exercício da Deusa Hécate

Baseado no exercício do livro “Oráculo da Deusa”, Hécate te encontra na encruzilhada onde você tem de fazer uma escolha: mergulhar em si mesmo e enfrentar as suas sombras ou permanecer preso dentro dos seus medos. Os momentos de escolha não são fáceis. Os desafios apresentados precisam de um salto de fé da pessoa que faz a escolha.

Hécate diz para abandonar a ideia de que há escolhas certas ou erradas: há apenas uma escolha.

Você tem adiado fazer uma escolha porque ela parece muito sufocante ou é uma situação “de perda”? A escolha lhe dá medo do desconhecido? Parece melhor e/ou mais fácil continuar com o que você já conhece?

Às vezes, a escolha tem de ser feita; no entanto você não está pronto. Nesses casos, o caminho para alimentar a totalidade é reconhecer onde você está e relaxar. Confie em que será capaz de fazer uma escolha quando chegar a hora. Conceda-se tempo e espaço. Não pressione, não se censure nem se culpe. Aqui você precisa de proteção. Quando você relaxa, subitamente surge a claridade para mostrar-lhe o que é necessário.

Hécate insiste para você aceitar o desconhecido. Saiba que seja qual for a sua escolha, ela lhe trará algo valioso que você poderá usar no caminho para a totalidade.

“Durante anos eu lutara contra meu coração, porque tinha medo da tristeza, 
do sofrimento, do abandono. Sempre soubera que o verdadeiro amor 
estava acima de tudo isto, e que era melhor morrer do que deixar de amar.
Mas achava que apenas os outros tinham coragem. 
E agora, neste momento, descobria que eu também era capaz. 
Mesmo que significasse partida, solidão, tristeza, 
o amor valia cada centavo do seu preço.”

Paulo Coelho.

Todos os caminhos estão abertos para você. Qual você percorrerá? Todos são excitantes e lhe prometem algo de que você precisa. E Hécate está presente para ajudá-la a escolher. Na interseção dos três caminhos, Hécate se senta e faz um sinal para que você se sente perto dela. Ao sentar-se, você está consciente do poder dos caminhos que se cruzam vibrando sob você. Você inspira profundamente e sente a vibração do seu corpo. As vibrações aumentam de tal modo que parecem lufadas de vento girando em volta de você. Elas lavam você de tudo. E a envolvem, circundam e sustêm. As rajadas vibrantes de vento ajudam-na a abandonar todos os pensamentos, sentimentos, atos. Hécate está com você, caso precise de ajuda. Hécate sugere que você observe ostrês caminhos abaixo. Eles não mais a atraem nem a deixam confusa. Parecem estreitos e insignificantes. Apenas três caminhos, três possibilidades. Os ventos arrefecem, e você flutua suavemente até o chão. Escolha um caminho a percorrer. O caminho que você escolheu é o caminho do coração. Vá adiante.

É hora de ousar.