Simbologia: Perséfone e o Três de Copas

A complexidade da civilização humana cresceu muito com o passar dos séculos, não é mesmo? Sabemos hoje, que isso ocorreu devido a capacidade que desenvolvemos em elaborar mitos e histórias metafóricas a partir da linguagem. “O inconsciente é estruturado como uma linguagem”, disse Lacan. Assim, a ferramenta principal para alcançarmos a psiqué humana e entendermos ela como um todo, é a partir da imagem e dos símbolos verificados a partir da linguagem propriamente dita.

A prática da terapêutica é um espaço onde se revelam os padrões psíquicos mais profundos, estruturantes da alma humana. As diversas histórias que se derramam, com seus traumas e transformações, representam uma amostra do que há de mais singular nos indivíduos ao mesmo tempo em que apontam para os temas centrais da vida, os quais sempre foram citados pela mitologia de todas as épocas.

Os arquétipos se revelam em sua forma mais pura dentro dos mitos e dos  personagens. Em cada enredo elaborado pela consciência dos homens de milênios atrás, com uma linguagem simbólica, típica do inconsciente, são contados os caminhos para a evolução da alma humana, os passos heroicos imprescindíveis para a iluminação da consciência, a trajetória do Ego na direção do Self.

Cada mito aborda aspectos diferentes de uma mesma jornada, a única que é essencial a qualquer pessoa, o caminho de sua individuação.

Quer um exemplo?

Espia a imagem do “Três de Copas” do Tarot. Ela possui em seu símbolo central os cachos da romã, que por muitos séculos, foi também o símbolo do mito da Deusa Perséfone.

Neste estudo vamos abordar a simbologia da carta “Três de Copas” a partir do mito grego da deusa Perséfone.

O objetivo é entendermos profundamente as sombras da nossa consciência, de uma maneira fácil e gostosa de aprender.

Preparados?

A Deusa Perséfone 

A vida é terra e o vivê-la é lodo. Tudo é maneira, diferença ou modo. Em tudo quanto faças sê só tu, em tudo quanto faças sê tu todo.” 

Canções de beber, Fernando Pessoa

O mito de Perséfone apresenta o tema da filha inocente raptada do mundo da mãe (Deméter) pelo deus dos subterrâneos (Hades).

Conta o mito que Perséfone debruçou-se para colher uma flor de Narciso à beira de um precipício quando a terra se abriu e dela surgiu Hades, que a sequestrou para o mundo das trevas. Sua mãe a procurou por vários dias até que ameaçou lançar a infertilidade sobre a terra se a filha não fosse encontrada. Com a interferência de Zeus, Hades concorda em devolvê-la à mãe, mas antes lhe oferece sementes de romã, que ela aceita, e por ter se alimentado naquele local ficaria eternamente vinculada ao Rei dos Submundos. Perséfone então passa a viver quatro meses com Hades nos infernos e oito meses com a mãe no Olimpo.

O mito de Perséfone

O mito conta que vários deuses como Dionísio, Hermes, Ares, Apolo cortejaram Coré, nome de solteira de Perséfone. Sua mãe Deméter (ou Hera), no entanto rejeitou a todos e escondeu a filha longe da companhia dos deuses.

Quando os sinais de sua grande beleza e feminilidade começaram a brilhar, em sua adolescência, Coré chamou a atenção de seu tio Hades, que a pediu em casamento. Zeus, sem consultar ninguém, atendeu ao pedido de seu irmão, que, impaciente, emergiu da terra e raptou-a enquanto ela colhia flores com as ninfas, ou segundo os hinos Homéricos, a deusa estava junto das irmãs Atena e Artêmis. Hades levou-a para seus domínios (o mundo dos mortos), desposando-a e fazendo-a rainha.

Irritada com Hades e Zeus, Deméter (Hera) decidiu não mais retornar ao Olimpo, permanecendo inconsolável, abdicando de suas funções divinas, até que lhe devolvessem a filha. Em pouco tempo as terras a tornam-se secas e estéreis, com grande escassez de alimentos.

Ela então se recusa a ingerir qualquer alimento e começa a definhar. Ninguém sabe lhe contar o que aconteceu com sua filha. Depois de muito procurar, finalmente descobre através de Hécate e Hélio que a jovem deusa havia sido levada para o mundo dos mortos. Junto com Hermes, vai buscá-la no reino de Hades (ou segundo outras fontes, Zeus ordenou que Hades devolvesse a sua filha).

Como, entretanto Perséfone tinha comido uma semente de romã de Hades no mundo dos mortos, fato que não permite que ninguém mais saia de lá, concluiu-se que a moça não havia rejeitado inteiramente Hades. Assim, estabelece-se um acordo, ela passaria metade do ano junto a mãe, quando seria Coré, a eterna adolescente, e o restante com Hades, quando se tornaria a forma de sombria Perséfone, a Rainha das Sombras.

A papoula e o narciso são as plantas a ela dedicadas. A papoula é devido ao fato de ter abrandado a dor de sua mãe na ocasião de seu rapto. O narciso era a flor que ela estava colhendo quando foi raptada por Hades. A ela também são associadas as romãs e as serpentes.

Relações Arquetípicas

Podemos ver várias imagens arquetípicas importantes neste mito. Um deles é a imagem do rapto. É uma representação de um ritual de iniciação pertencente a ritos da vegetação. Normalmente, o rapto se consuma no outono, “quando os trabalhos agrícolas estão terminados”, os celeiros estão cheios e é, portanto, o momento de se pensar e preparar a próxima colheita.

O rapto da noiva também era um costume entre os gregos e romanos, a noiva era levada nos braços do noivo, simulava uma fuga e começava a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a acompanhavam. Psicologicamente significa que, para a mulher, o ato do casamento significa um período de intensa transição. A morte de sua ligação com a mãe e de sua maturidade enquanto mulher. Para a relação mãe e filha o masculino é visto como violador e sequestrador.

Outro tema importante é o da heroína ou deusa que cai no sono da morte. Esse é um tema comum em contos de fadas. Heroínas como Branca de Neve e A Bela Adormecida ficaram adormecidas por um tempo devido a maldição de uma bruxa e despertaram por meio de um beijo de amor. No conto, a maldição do sono tem a duração de cem anos. Durante esse tempo, o reino se tornou estéril e uma parede de espinhos cresceu ao redor do castelo. No mito de Perséfone e Hades, a terra se torna estéril e sem vida, pois Deméter está sofrendo de saudades pela filha.

A esterilidade da Terra significa psicologicamente que o feminino está dormente, por essa razão não há fertilidade, tudo se tornou árido. Ou seja, o mito da descida cíclica de Perséfone ao Hades e seu retorno à superfície simboliza as estações do ano e a fertilidade da terra, assim como os mistérios femininos, que inclui a espera pelo tempo certo para que algo amadureça.

Perséfone foi a figura central nos Mistérios de Elêusis, que por dois mil anos antes do cristianismo foi a principal religião dos gregos. Nos Mistérios de Elêusis, os gregos celebravam a volta ou renovação da vida depois da morte através de Perséfone do Inferno, ou seja, o fim do Inverno e o início da Primavera.

Era um rito centrado na Grande Mãe. Perséfone era uma deusa tipicamente cretense, assim como Hera. Ela era uma transposição da Grande Mãe, que foi assimilada pelos gregos, recebendo uma mãe grega, mas mantendo seu aspecto de fecundidade. Por essa razão era chamada de Hera Infernal. Perséfone também se liga a Afrodite, sendo que as duas rivalizavam em beleza. Com ela forma um par de opostos: a deusa da morte dos grãos e a deusa da vida dos grãos.

A híbrida Coré-Perséfone nos mostra dois arquétipos distintos em uma mesma divindade: o da jovem-virgem e o da rainha do mundo dos mortos.

Como jovem Coré esbelta e bonita, está associada com símbolos de fertilidade: a romã, o grão, o milho, e também com o narciso. Como Rainha do Inferno, simboliza uma deusa experiente que reina sobre os mortos, guia os vivos que visitam o mundo das trevas, e pede para si o que deseja.

Demeter e Perséfone

Coré representa a mulher presa a uma mãe dominadora e protetora. A eterna adolescente que não sabe o que quer e se deixa manipular por outras pessoas. Mesmo adulta está sempre voltada a agradar a mãe. Geralmente seu lado masculino é ausente e primitivo. O homem é visto como intruso nessa relação, sendo que somente um rapto, ou seja, um choque pode ajudá-la a se relacionar com ele e adquirir características masculinas, como objetividade e foco. Assim como A Bela Adormecida, espera para ser acordada de seu sono.

Já como Perséfone ela representa o aspecto feminino que empreendeu a descida ao inconsciente e ao sofrimento, e por isso é capaz de guiar os outros em suas jornadas. Ela alcança desenvolvimento psicológico e autonomia ao entrar em contato com sua subjetividade e não ficar presa a imagem de virgem, vinculada à mãe.

Perséfone é aquela que é capaz de regredir ao mundo interior quando necessário e de saber quando voltar para as exigências do mundo externo renovada.

Assim como Hera ela também é uma Rainha e ao contrário dela tem um casamento harmonioso com Hades, com raras brigas.

O rapto de Perséfone por Hades

Perséfone é o símbolo da função inconsciente feminina, mas que amadureceu e mantém um relacionamento com sua contraparte inferior, representada pelo mundo subterrâneo e seu marido Hades. Nesse compromisso estabelecido com a função interna é possível para a intuição materializar suas ideias no mundo externo.

Perséfone é o arquétipo que nos auxilia em nossa descida a nossa própria profundeza. Ela é um guia, um psicopompo. A mediadora entre a realidade externa e a subjetividade interna. É ela, portanto, quem pode nos auxiliar na compreensão do significado simbólico de nossos próprios sofrimentos.

Fazendo uma tradução para uma abordagem contemporânea, identificamos vários mitemas importantíssimos, trazidos por esta história e que podem ser observados para a prática clínica e terapêutica.

A iniciação no mito dá-se com um rapto, fazendo referência à forma como se inicia o contato com o inconsciente para quem possui a consciência impregnada pela inocência.

Há pessoas que permanecem por longo tempo numa atitude fantasiosa com relação às questões decisivas da maturidade e são despertadas de modo violento (crises de pânico, sintomas físicos, perdas, acidentes, doenças) para uma reflexão mais profunda sobre o caminho que tem percorrido até então.

Atendi uma jovem mulher que se casou com um homem que pouco conhecia para depois reconhecer nele o “príncipe das trevas”. Este homem encarnou e representou sua imagem de animus negativo, reforçada pelo final traumático e sem explicações de um namoro com o seu grande amor na adolescência. Para não deparar-se com a perda do sonho romântico, continuou a acreditar numa felicidade ingênua, sem esforço, vinculando-se a uma relação aparentemente feliz, mas que se configurou como as “sementes de romã” que a tornaram prisioneira de um mundo sombrio.

A iniciação traumática ou mediante uma profunda crise na vida, funciona geralmente como um chamado para iniciar conscientemente o processo de individuação, proposto por Carl Gustav Jung como o conceito central da Psicologia Analítica. O rapto pode ser visto simbolicamente como uma lesão infligida ao ego que precisa ser provocado, estimulado externamente para abdicar de seu controle exclusivo sobre o psiquismo, levando-o ao reconhecimento do centro maior, o Self.

A descida inicialmente traumática é, entretanto, a chave para um vasto campo de descobertas interiores. O tema da descida ao inconsciente, seguida da ascensão, vai transformando a ingênua Perséfone na grande “Senhora dos Infernos”, mas não sem antes sofrer os períodos de pavor através do qual um psiquismo inocente é invadido pelo confronto com os conteúdos assustadores que estiveram durante longo tempo reprimidos.

O temor dos conteúdos internos, o medo de enlouquecer, a culpa por ter “comido as romãs”, a inabilidade de lidar com conteúdos tão afetivamente carregados, aprisionam a psiquê de pacientes durante ainda algum tempo num padrão infantil, o qual se manifestou como busca de proteção maternal da vida apoiando-se nos outros.

A paciente citada no exemplo, manifestou durante meses o pânico das fantasias sombrias que a assaltaram, a insegurança em lidar com os afazeres do mundo adulto (trabalhar, assumir um lugar social, responder por seus atos, etc). Temia sempre uma punição qualquer, vinda de qualquer pessoa, quando na realidade projetava sobre o mundo e as pessoas os algozes interiores que começava a reconhecer como aspectos de sua sombra (o orgulho e o desejo de domínio escondidos sobre a capa da mulher frágil e desprotegida, a vaidade excessiva ocultada pelo perfeccionismo e pela exigência de ser a melhor em tudo o que fizesse).

A psiquê infantil violentada pela iniciação brusca demora em se situar no mundo adulto. Achava-se inicialmente vítima do mal exterior encarnado na figura do marido para não identificar em si as “sementes” do mesmo mal que acusa no outro.

A imaginação fértil, as intuições funestas, a relação direta com os sonhos, são os componentes deste mundo que inicialmente foram vistos como ameaçadores, pois revelaram seu padrão autopunitivo, persecutório, para redimir-se de uma profunda culpa inconsciente, responsável pela rede de armadilhas construída em torno de si mesma para expiar seus sofrimentos.

A Perséfone imatura geralmente aparece sob a roupagem da vítima, da mártir, da incompreendida. Só depois, com o tempo e a maturidade conquistada pelo esforço na relação com o inconsciente, poderá entender melhor suas manifestações psíquicas, deixar de projetar no externo as raízes de seus males e dirigir de maneira sábia a relação com os conteúdos do mundo avernal, fazendo das manifestações inconscientes seus poderosos aliados (Hades).

É preciso realizar completamente a dolorosa descida para ser capaz de subir e trazer para a superfície a sabedoria adquirida. Após o período de sofrimento, Perséfone é libertada e é agraciada com o poder de circular tanto no Olimpo como no Hades, saber do céu e do inferno, penetrar nas raízes da dor e descobrir o caminho da própria cura.

A paciente começou a trazer para sua vida concreta os benefícios deste contato profícuo com o inconsciente. Ampliando a consciência sobre os aspectos antes desconhecidos de si mesma pôde utilizar adequadamente seus verdadeiros talentos, abandonar progressivamente o papel da vítima e assumir seu lugar como profissional, de mãe, e mais do que isso, a legitimar a si mesma, recuperando a crença na forma própria de sentir e avaliar as situações vividas.

O medo, a culpa, o discurso de vítima foram cedendo espaço para uma manifestação mais sincera de seus verdadeiros atributos inconscientes. Passou a perceber com maior respeito e consideração qualquer conteúdo que aflorava nos sonhos e nas fantasias, desenvolvendo um diálogo aberto com os mesmos.

Abandonar o lugar de inferioridade antes habitado e colocar-se como pessoa ativa na construção do próprio destino é uma mudança que desafia o antigo padrão tão cultivado pela Perséfone menina. Despedir-se dos aspectos infantis e assumir o ônus da vida adulta, responsabilizando-se pela própria psiquê, assumindo seus deuses e monstros interiores é tarefa heróica que transforma a vítima assustada na Perséfone sábia, conselheira, Senhora e Rainha.

A sabedoria é resultado da construção de um mundo íntimo rico e fértil, que não é mais tratado como inimigo necessitado de mecanismos repressores. O arquétipo do Velho Sábio no inconsciente masculino e o da Grande Mãe no feminino orientam o desenvolvimento do ego na direção do Self.

Acompanhar um paciente em terapia é identificar os caminhos apresentados por seu Self e revelar para sua consciência os símbolos genuinamente criados para direcionar a energia psíquica na trajetória da individuação. Deixar-se conduzir pelas diretrizes do Self, aprender a relacionar-se com o mundo subjetivo de si mesmo e estar conectado às próprias profundezas é ser guiado pelo propósito superior da individuação e integração.

Até alcançar este estágio de perfeita sintonia com o Self passamos, entretanto, por descidas e subidas cíclicas, recheadas de sofrimentos e vitórias, como retrata o mito. Nos ciclos de descida aos infernos nos conectamos inicialmente com nossos medos, depressões, aspectos infantis e conteúdos instintivos.

A Abundância

O passo para integração do “Três de Copas” ou “A Abundância” é passar pelos aspectos sombrios, como Perséfone, provar a romã, criar raízes no submundo para poder subir à consciência para aprender a integrar os aspectos duais de luz e sombra na personalidade total. As descidas seguintes já vão perdendo seu caráter traumático, permitindo assim o vislumbrar da sabedoria resultante do mergulho nas próprias feridas, favorecendo então a percepção dos componentes criativos e ordenadores do psiquismo.

É preciso resistir às dores iniciais para merecer penetrar os recantos mais transcendentes do ser e assim amadurecer e frutificar lindamente, como mostra a figura do “Três de Copas”.

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Obrigada, namastê.